domingo, 6 de novembro de 2011

Uma história de terror

Estava todo concentrado trabalhando sozinho. De repente senti aquele odor.
Um odor que nenhum perfume do mundo consegue anular.
Sim, senti aquele cheiro de peido, aquela coisa engarrafada que a tudo empesteia.
Como um verdadeiro detetive, levantei os olhos para desvendar o ambiente.
Precisava descobrir o criminoso.Se estivesse sozinho já saberia quem era o culpado, claro. Mas não. Naquela hora sempre estou naquele lugar.
Aos poucos fui olhando na cara de cada um. Nem sabia que tanta gente já havia chegado!
Mas ninguém estava me olhando. Eu é que olhei para o mais próximo, o provável criminoso. Um garoto recém-contratado que já parecia querer puxar o saco do chefe, fazer o jogo, sacumé. Aliás, puxar o saco da chefe, sim, porque nós temos é uma chefe muito linda. Toda cheinha, sem aquela magreza anoréxica, carne para apalpar.
Só de pensar nela, e ela aparece.
Naturalmente, deixei de lado o recém-contratado encebado para olhar aquele primor de chefe.
Mas então me dei conta de que ela poderia ser a responsável pelo crime.
Ela tinha acabado de sair de perto do meu melhor amigo, o Paulo. E se no caminho de ida ela já tivesse soltado o pum? E se a porcaria foi tão forte que acabou se espalhando pelo ar?
Levantei.
Fiquei sufocado.
Olhei a volta, prá todo aquele mundo de gente que trabalhava como se nada tivesse acontecido e percebi: como é que apenas eu fui capaz de sentir o fedor da catinga?
Respirei fundo. Ainda estava no ar. Tinha de haver alguma coisa errada com todo mundo. Resolvi fazer um teste:
- Pessoal, vou abrir as janelas, alguém me ajuda?
Quando quase todo mundo levantou, fiquei estarrecido.
Os únicos que não se mexeram foram o novato encebado paquerador jogador e puxador de saco e, ai não!, a chefe. A nossa grande e maravilhosa chefe.
Como é que pode, o povo estava com vergonha de se manisfestar?
Fingindo que nada estava sentindo para quê, manter o emprego?!
Fiquei totalmente paralisado. Estatelado. Estupidificado. Enquanto todo mundo se apressava e abria as janelas.
Nesse momento, a chefe resolver dizer:
- Ah, acho que essa feijoada que comi no café da manhã me fez mal. Mas estava tão deliciosa! - Ela completou com um sorriso. - Vou comer uma sobremesa na minha sala, assim não incomodo vocês.
E jogando os longos cabelos para trás, saiu bomboleante em direção ao cubículo aonde ela ficava, enquanto o moleque da mesa próxima bradava, todo-sorrisos.
- Precisa que eu compre algum remédio, chefe?

Pérolas extraídas da Saporência, by Sapo Sabido
Cuide de quem você ama e tome cuidado com quem você anda.
Se alguém agir naturalmente em circunstâncias aterradoras, manifeste-se.

Circunstâncias que originaram a Saporência, by Sapo Sabido 
Hoje eu tive um sonho. Não foi o mais bonito.
Muito menos o mais agradável, odoríferamente odorífero ou remotamente aprazível, aceitável, dignificante.
Mas tudo bem, foi só um sonho.
Que leiam só e comprovem a verdade que vos digo.

Comentários adicionais (JJSilvaSauro)
Esta foi uma Saporência Aterradora, que narrou a mais pura forma de terrorismo a que a maioria das pessoas está sujeita. Tamanho terrorismo abala as mais profundas entranhas do ser. Cuidem-se e venerem o Eterno Saporente e sua sabedoria.